Como as férias escolares podem contribuir para a obesidade infantil

Por Victor Proençacriana obesa 22222

Para as crianças as férias são o período mais esperado de todo o ano, é tempo de brincar com os amigos, visitar os avós que moram longe e relaxar. Se há alguns anos as brincadeiras gastavam muita energia, hoje a onda é jogar vídeo game e assistir televisão, atividades que gastam pouca energia. Ao mesmo tempo em que as formas de se divertir mudaram, a alimentação também mudou. Os doces caseiros agora são industrializados, as frutas saíram de moda e o que pega agora é um grande pacote de bolacha recheada.  Qual o problema disso? Excesso de peso e obesidade infantil.

A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde, demonstrou que em todas as idades, a partir de 5 anos, confirma-se a tendência de aumento acelerado de excesso de peso e obesidade. Em crianças entre 5 e 9 anos de idade e entre os adolescentes, a frequência de excesso de peso, que vinha aumentando modestamente até o final da década de 1980, praticamente triplicou nos últimos 20 anos (IBGE, 2010), como podemos observar nos gráficos abaixo, que representam as frequências de excesso de peso e de obesidade entre crianças e adolescentes brasileiros segundo as pesquisas de orçamento familiar.

gráfico 1 gráfico 2

(Fonte: Melo, Maria Edna de. Diagnóstico da Obesidade Infantil. Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica – ABESO. Disponível em:<http://www.abeso.org.br/pdf/Artigo%20-%20Obesidade%20Infantil%20Diagnostico%20fev%202011.pdf&gt;. Acesso em: 08 jul. 2012).

Diante do problema que a obesidade pode causar em nossa sociedade, em março de 2012 o Ministério da Saúde lançou a Semana de Mobilização Saúde na Escola, um dos projetos que fazem parte do Programa Saúde na Escola. Esse projeto ocorre todos os anos e o tema de 2012 é “Prevenção da obesidade na infância e na adolescência”. Um dos focos do programa é o horário de lanche nas escolas, visto que muitos pais colocam nas lancheiras dos seus filhos alimentos que possuem baixo valor nutricional e altos níveis de açúcares, sódio e gorduras. As crianças passam pelo menos ¼ do dia na escola, nesse sentido parece evidente que esse ambiente pode desempenhar um papel importante na manutenção da qualidade de vida dos nossos filhos, mas qual será a real participação que a escola exerce?

Uma pesquisa publicada em 2005 demonstrou que crianças com sobrepeso inscritas em aulas de educação física direcionadas à boa forma apresentaram maior perda de gordura corporal, melhora da função cardiovascular e dos níveis de insulina em jejum quando comparadas às crianças controle (inscritas em aulas padrão de atividade física) (Carrel et al., 2005). Outro estudo, publicado em 2007, também demonstrou que aulas de educação física focadas na melhora do estilo de vida levaram à melhora das funções cardiovasculares, composição corporal e níveis de insulina em jejum de crianças com sobrepeso. Não obstante, quando essas crianças entraram de férias, todos os benefícios foram perdidos, mostrando que as intervenções iniciadas em no ambiente escolar devem ser mantidas no ambiente familiar, principalmente durante as férias (Carrel et al., 2007). Dados semelhantes também já foram relatados em pesquisa prévia (Gillis et al., 2005).

Um dos fatores que pode ter contribuído para o significativo ganho de peso visto durante as férias é o aumento do tempo gasto em atividades consideradas sedentárias. Esse é um aspecto considerado paradoxal, pois sabemos que durante as férias as crianças geralmente passam mais tempo realizando atividades fora de casa. Não obstante, apesar de realizarem mais atividades físicas fora de casa, elas também se engajam mais em atividades consideradas sedentárias, como assistir televisão, jogar videogames e computadores, as quais estão associadas com aumento dos níveis de gordura corporal. Em especial, a televisão parece desempenhar um importante papel, pois quanto mais tempo as crianças gastam em frente dela, e, consequentemente, consomem mais alimentos considerados calóricos, maiores são os índices de massa corporal. Outro aspecto importante em relação ao tempo em frente à televisão, é que a maioria dos alimentos que aparecem nas propagandas são altamente calóricos, como doces, salgadinhos e refrigerantes e, quanto mais propagandas desse tipo as crianças assistem, maiores parecem ser suas influências nas escolhas dos alimentos que os pais colocam à mesa. As celebrações em família, socializações e situações relaxantes também parecem contribuir para as recaídas nas dietas, já que há grande disponibilidade e variedade de alimentos muito com sabor agradável, como as bebidas doces que estão correlacionadas com aumento de peso (Gillis et al., 2005).

televisão

Figura 1. Obesidade e Televisão (fonte: MARCELLUS, Alexander. Obesidade e Televisão. Disponível em: <http://vivercomsaudebr.blogspot.com.br/2010/10/obesidade-e-televisao.html&gt;. Acesso em: 08 jul. 2012).

Os estudos acima relatados realizaram todas as mudanças dentro do ambiente escolar e com crianças com sobrepeso, mas essas mudanças não foram estendidas para o ambiente familiar. Dessa forma, poderíamos pensar que o ambiente escolar é o grande herói, e que as famílias são as grandes culpadas, mas este não parece ser o caso, uma vez que vários autores denominam as escolas como “zonas de obesidade”, as quais, em sua grande maioria, fornecem refeições muito calóricas, disponibilizam pouco tempo para atividades físicas orientadas e permitem que empresas que comercializam refrigerantes e alimentos industrializados instalem máquinas de vendas nas escolas. De fato, um grande estudo publicado em 2007 acompanhou mais de 5000 crianças demonstrando que o ganho de massa corporal é mais acentuado durante as férias, mas ele também ocorre durante o ano escolar (Von Hippel et al., 2007).

Todos esses dados nos levam a crer que as intervenções que focam exclusivamente o ambiente escolar, como remoção das máquinas de venda, apresentam efeitos limitados, já que as maiores fontes de sobrepeso residem fora das paredes escolares. Por outro lado, é importante salientar que apesar das escolas não serem consideradas as maiores fontes de sobrepeso é imperativo que as intervenções provenientes das escolas continuem ocorrendo, pois elas desempenham um grande papel educador das crianças. As informações sobre nutrição, por exemplo, podem melhorar os hábitos alimentares das crianças fora da escola, particularmente se os pais estiverem envolvidos (Von Hippel et al., 2007).

Por fim, para um completo programa de controle de peso ter sucesso, estratégias devem ser direcionadas para se lidar com o período de férias. Além disso, as famílias devem estar cientes do seu papel oferecendo um ambiente adequado. Assim, a principal proposta é que as intervenções ocorram não somente durante o período escolar, mas também, e ainda mais importante, após o sinal tocar.

 

REFERÊNCIAS

Agência Saúde. Quase metade da população brasileira está acima do peso. Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/noticia/4718/162/quase-metade-da-populacao-brasileira-esta-acima-do-peso.html&gt;. Acesso em: 08 jul. 2012.

Agência Saúde. Mais de 5 mi de alunos serão orientados sobre obesidade. Disponível em: <http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/noticia/4431/162/mais-de-5-mi-de-alunos-serao-orientados-sobre-obesidade.html&gt;. Acesso em: 08 jul. 2012.

CARREL, Aaron L. et al. Improvement of Fitness, Body Composition, and Insulin Sensitivity in Overweight Children in a School-Based Exercise Program: A Randomized, Controlled Study. Arch Pediatr Adolesc Med, Wisconsin, p.963-968, 2005.

GILLIS, Linda; MCDOWELL, Melissa; BAR-OR, Oded. Relationship between summer vacation weight gain and lack of success in a pediatric weight control program. Eating Behaviors, Ontario, p.137-143, 2005.

IBGE. Antropometria e Estado Nutricional de Crianças, Adolescentes e Adultos no Brasil. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/pof/2008_2009_encaa/pof_20082009_encaa.pdf&gt;. Acesso em: 08 jul. 2012.

MARCELLUS, Alexander. Obesidade e Televisão. Disponível em: <http://vivercomsaudebr.blogspot.com.br/2010/10/obesidade-e-televisao.html&gt;. Acesso em: 08 jul. 2012

Melo, Maria Edna de. Diagnóstico da Obesidade Infantil. Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica – ABESO. Disponível em: <http://www.abeso.org.br/pdf/Artigo%20-%20Obesidade%20Infantil%20Diagnostico%20fev%202011.pdf&gt;. Acesso em: 08 jul. 2012.

OBESIDADE INFANTIL. Obesidade na Adolescência ou Infância – Consequências e Doenças. Disponível em: <http://www.obesidadeinfantil.org/artigos-obesidade-infantil/adolescencia-consequencia-doencas.php&gt;. Acesso em: 08 jul. 2012.

VEJA. Obesidade no brasil. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/multimidia/infograficos/obesidade-no-brasil&gt;. Acesso em: 08 jul. 2012.

VON HIPPEL, Paul T. et al. Relationship between summer vacation weight gain and lack of success in a pediatric weight control program. American Journal of Public Health, Columbus, p.696-702, 2007.

_________________________________________________________________________

Victor Proença é Biomédico, Doutor e Pós-Doutor em Fisio-Farmacologia.

É sócio fundador da empresa Suporte Ciência – Consultoria e Comunicação em Saúde, e também Professor Universitário.

_________________________________________________________________________