O tratamento para a obesidade poderá ser encontrado na farmácia?

Por Victor Proença

Que a obesidade é um problema de saúde pública, isso é fato! Nas grandes metrópoles, como em São Paulo, mais de 66% das pessoas estão acima do peso ideal, sendo que cerca de 30% estão obesos. Isso influencia diretamente os cofres públicos. No Brasil os custos com o tratamento de doenças relacionadas à obesidade chegaram perto de meio bilhão de Reais em 2011.

custo da obesidade

Qual será a solução para esse problema?

Antes de qualquer coisa, não sejamos pretensiosos ao ponto de afirmar que a cura para todos os problemas que decorrem de uma patologia tão complexa está nas mãos de um único profissional! Que só uma dieta, ou só o exercício físico, ou só um medicamento, é capaz de trazer todas as soluções. Somente uma abordagem multidisciplinar será capaz de tratar adequadamente os nossos pacientes!

Então como é feito o tratamento da obesidade?

medicamento tratamento obesidade

De uma forma bem resumida, o princípio geral da perda de peso é criar um déficit de energia. O controle inicial envolve mudanças no estilo de vida, como modificações na dieta (dieta de baixa caloria), aumento da atividade física e terapia comportamental. A farmacoterapia (terapia com medicamentos) somente deve ser iniciada após 6 meses de terapia combinada de mudança de estilo de vida, quando os pacientes tiverem perdido menos que 0,4 kg/semana. Os medicamentos são iniciados como terapia conjunta à dieta e atividade física para pacientes com IMC > 30 kg/m2 (sem outros fatores de risco relacionados à obesidade) ou IMC > 27 kg/mm2 (com fatores de risco relacionados à obesidade ou outras doenças).

Muitos esforços vêm sendo feitos para o desenvolvimento de um medicamento efetivo para a perda de peso durante anos, mas a grande maioria tem falhado por baixa eficácia ou efeitos colaterais intoleráveis. Além disso, muitos medicamentos foram retirados do mercado em diversos países por questões de segurança: fenfluramina, dexfluramina, fentermina, rimonabanto, anfetamina, sibutramina etc.

medicamentos antiobesidade proibidosNesse sentido, a tarefa de desenvolvimento de um novo medicamento seguro e eficaz para uma doença tão complexa como a obesidade é extremamente desafiadora. Assim, a pesquisa constante e o conhecimento mais aprofundado sobre esse assunto são inegavelmente necessários.

Dessa forma, esse texto tem como objetivos principais apresentar os recentes avanços no conhecimento da fisiopatologia da obesidade e apresentar os compostos que estão sendo avaliados clinicamente para o tratamento dessa doença, bem como discutir seus respectivos mecanismos de ação e alvos terapêuticos.

alvos-para-tratamento-da-obesidade

Figura 1. Alguns alvos para o tratamento da obesidade (adaptado de Nature Reviews).

Muitos desses compostos são representados por siglas e podem nem chegar às prateleiras das farmácias, dependendo dos resultados obtidos nas fases da pesquisa clínica.

Drogas com ação neural ou hormonal

AZD 2820: atua como agonista parcial do receptor de melanocortina produzindo ações anorexígenas.

Bupropiona: trata-se de um antidepressivo que reduz os episódios de comer compulsivo e apresenta efeitos anoréxicos indiretos.

Cabergolina: atua como agonista dos receptores dopaminérgicos do tipo D2, o que parece inibir os circuitos cerebrais de recompensa (de alimento).

Exenatida: atua como agonista do receptor de GLP-1 (peptídeo-1 similar ao glucagon) levando à perda de peso pela inibição do apetite.

GSK1521498: atua como agonista inverso dos receptores µ-opioides reduzindo a ingestão alimentar.

Pramlintide + Metreleptina: são análogos à amilina que é secretada pela célula β pancreática juntamente com a insulina e diminui a ingestão de alimentos, a secreção de glucagon e o esvaziamento gástrico. 

tratamento farmacológico da obesidade

Drogas que afetam o metabolismo de lipídeos e outros agentes

AZD7687: atua inibindo a enzima diacilglicerol aciltransferase (DGAT1), envolvida na síntese de triglicérides e formação de tecido adiposo.

PF-04620110: atua inibindo a enzima diacilglicerol aciltransferase (DGAT1), envolvida na síntese de triglicérides e formação de tecido adiposo.

Beloranib (ZNG-433): atua inibindo a enzima metionina aminopeptidase-2 limitando a formação de adipócitos e a inflamação associada.

Maraviroc: é o primeiro membro de uma nova classe de medicamentos antirretrovirais, atuando como antagonista do receptor de quimiocinas CCR5 que parece melhorar o perfil lipídico dos pacientes.

Resveratrol: é um polifenol natural que apresenta efeito termogênico e inibe a formação de tecido adiposo visceral. Ele também apresenta efeitos anti-inflamatórios, moduladores do tecido adiposo e sensibilizadores da insulina.

Vytorin (sinvastatina e ezetimiba): é um hipolipemiante que inibe seletivamente a absorção intestinal de colesterol e de fitosterois relacionados e a síntese endógena de colesterol.

Algumas dessas substâncias apresentaram resultados positivos e já estão na última fase da pesquisa clínica, como a Bupropiona, a Cabergolina, a Exenatida e o Resveratrol. Nesse sentido, o futuro da terapia medicamentosa da obesidade parece ser muito promissor, seja com um único medicamento isolado ou em combinação. Esperamos que alguns desses fármacos sejam, de fato, aprovados para uso no tratamento da obesidade e que venham a preencher a atual lacuna no arsenal terapêutico dessa patologia.

Por fim, reforçamos que a busca de uma droga mais eficaz não deve desviar a atenção do profissional de saúde das orientações fundamentais para modificações do estilo de vida (reeducação alimentar + exercício físico). Essas, sim: foram, são e sempre serão os pilares do tratamento da obesidade. 

exercício e nutrição

Referências

CHUGH, P. K.; SHARMA, S. Recent advances in the pathophysiology and pharmacological treatment of obesity. Journal Of Clinical Pharmacy And Therapeutics, New Delhi, v. 37, p.525-535, 2012.

JOURNAL OF LIPID RESEARCH (Ed.). Thematic Review Series: Glycerolipids. DGAT enzymes and triacylglycerol biosynthesis. Disponível em: <http://www.jlr.org/content/49/11/2283/F5.expansion.html&gt;. Acesso em: 20 mar. 2013.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Novas perspectivas para o tratamento do diabetes tipo 2: incretinomiméticos e inibidores da DPP-IV. Revista Brasileira de Medicina, São Paulo, n. 3, p.1-20, 2007.

SUPLICY, Henrique. Tratamento Farmacológico da Obesidade – Perspectivas 2010. Disponível em: <http://www.abeso.org.br/pagina/278/tratamento-farmacologico-da-obesidade.shtml&gt;. Acesso em: 20 mar. 2013.

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Victor Proença é Biomédico, Doutor e Pós-Doutor em Fisio-Farmacologia.

É sócio fundador da empresa Suporte Ciência – Consultoria e Comunicação em Saúde, e também Professor Universitário.

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