Alimentação infantil: o exemplo e a repetição levam à perfeição

Por João Lima

O consumo alimentar ocupa, atualmente, um papel central na prevenção e no tratamento de doenças, uma vez que a maioria dos problemas envolvendo a nutrição e a alimentação decorre do excesso ou da carência de determinados nutrientes e, portanto, de um excesso ou déficit ao nível do consumo alimentar adequado.

A infância, fase crucial para o crescimento e desenvolvimento, é simultaneamente um período crítico na formação dos hábitos alimentares.

Tendo em conta que os hábitos alimentares que exibimos na idade adulta refletem os hábitos de consumo que assumimos na infância e que a mudança de hábitos alimentares na idade adulta se reveste de elevado insucesso, é importante que moldemos a alimentação das crianças no sentido de constituir hábitos alimentares saudáveis desde a primeira hora.

O conhecimento dos determinantes do consumo alimentar, nomeadamente na infância, nos auxilia na sua definição e modulação.

família comendo

A população infantil é, do ponto de vista psicológico, socioeconômico e cultural, influenciada pelo ambiente onde vive, que, na maioria das vezes, é constituído pelo ambiente familiar. Assim, grande parte dos determinantes do consumo alimentar está centrada na família. Afinal, nesta idade, os nossos hábitos são aprendidos por imitação do modelo, que regra geral se encontra no seio familiar.

É também o seio familiar que determina a disponibilidade e o acesso aos alimentos, bem como seu modo de preparação, sendo um fato que a melhoria dos hábitos alimentares dos pais pode estender-se a todos os outros membros da família.

Sabemos que a disponibilidade, a aceitabilidade e a preferência alimentar determinam o consumo alimentar. Por essa razão é essencial que ocorra a oferta, por exemplo, de frutas e verduras, por forma a potenciar não só o seu consumo, mas também a preferência por este tipo de alimentos.

Efetivamente, as preferências alimentares mudam em consequência de experiências e aprendizagens. Exemplo disso é a exposição sistemática a determinado alimento (incluindo o “sabor” transmitido pelo leite materno), que aumentando a familariedade com esse alimento, poderá conduzir à sua preferência e consequentemente ao seu consumo. Isto é válido, por exemplo, para quem não gosta de vegetais.

rolinho de legumes

Para além da preferência, a disponibilidade do produto alimentar é crucial no seu consumo. Isto é, quando os alimentos estão acessíveis e prontos para consumo, as crianças apresentam uma maior probabilidade de comê-los. Como por exemplo, entre crianças em idade pré-escolar, a ingestão de frutas e verduras é mais elevada quando os alimentos estão disponíveis em locais acessíveis e em porções prontas para o consumo (exemplo – saladas de frutas, cenouras cortadas em palito).

Regra geral, as crianças escolhem os alimentos que lhes são servidos frequentemente, e elas tendem a preferir os alimentos que estão mais facilmente disponíveis em casa. Assim, as crianças tendem a consumir e preferir os alimentos aos quais são rotineiramente expostas, em detrimento dos que lhe são estranhos.

A aceitação a novos alimentos aumenta por meio de repetidas exposições, podendo requerer entre 8 a 10 exposições em crianças com 2 anos e de 8 a 15 exposições para crianças entre 4 e 5 anos de idades, antes que se consigam modificações definitivas na alimentação.

Os pais e educadores assumem, assim, um papel crucial no que diz respeito ao consumo alimentar da criança, uma vez que as preferências alimentares desta são influenciadas pelas escolhas e pelos hábitos alimentares daqueles que a envolvem.

Little girl with a bowl of vegetables

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João Lima é Nutricionista, formado pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (Portugal). Atualmente trabalha na área coletiva, ao nível de UAN, nutrição comunitária e nutrição clínica (consultório).

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