A consciência dos sentimentos como foco do controle do peso

Por Valéria Bordin

Nos dias de hoje falar sobre perda ou controle de peso é nadar em um mar agitado e bravio. Encontramos diferentes informações, dietas que nos prometem resgatar o que julgamos ter sido um dia ou o que nunca fomos; fórmulas milagrosas que detectam nossas necessidades e parecem inicialmente atendê-las em sua plenitude. Alimentos que um momento fazem o papel de vilões e em outro, o de super-heróis. Dentro de tanto assunto conflituoso nosso barco não sabe muito bem que rumo seguir, e na maioria das vezes deixamos ele à deriva, sem ao mesmo ter uma reflexão.

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Na prática clínica do aconselhamento nutricional conseguimos verificar com mais clareza que para algumas pessoas, peso é um assunto emocional. Verificamos que elas sabem como compor uma dieta equilibrada, conhecem os pontos relevantes de uma alimentação saudável preconizados pelos guias alimentares, mas acabam frequentemente deixando-se arrastar por seus desejos, não conduzindo-os com responsabilidade e sempre ultrapassando limites.

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Sabemos que no campo da alimentação há um conflito entre o que se deseja e o que é necessário comer, porque o alimento é muito mais que um invólucro de nutrientes que satisfaz uma necessidade fisiológica, ele é marcado por significados, preenchendo muitas vezes necessidades afetivas e emocionais.

Um ponto importante que vale ressaltar é quando usamos desse mecanismo repetitivamente em resposta às nossas emoções. Come-se porque está triste, ou porque está ansioso, outras vezes porque está entediado e outras para aplacar um nervosismo. E com isso vamos perdendo o controle. Queremos aquela sensação de conforto e aconchego dada uma vez ao tomar um sorvete após um conflito no trabalho, e queremos repetir isso constantemente, mas o prazer acaba sendo tão rápido, que nos leva a uma busca desenfreada, acreditando que comendo o que desejamos aplacaremos nossas emoções. Mas isso quase nunca acontece, a angústia, tristeza e ansiedade continuam lá…e então vem a culpa , mais um sentimento para essa interminável lista.

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E o que fazer com tudo isso e com todos os anseios que rodeiam a nós e à nossa alimentação?

Segundo Thich Nhat Hanh mestre Zen Budista que em parceria com a Nutricionista Lilian Cheung, da Universidade de Harvard, EUA desenvolveu o livro Savor: mindful eating, mindful life, o qual descreve que todo nosso sentimento tem uma raiz fisiológica ou psicológica.

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Para exemplificar vamos imaginar que você ficou irritado porque comeu demais e agora está se sentindo estufado e desconfortável. Avaliando essa situação podemos dizer que esse sentimento tem uma raiz fisiológica. Você comeu demais, ou rápido demais, não ouviu seus sinais internos de saciedade e acabou por romper os limites.

Em outra situação: você não conseguiu entrar em uma calça jeans que comprou há poucos meses e ficou extremamente irritado. Esse sentimento desagradável tem uma raiz psicológica. Essa sensação de frustração não está diretamente ligada a uma ação que ocorreu nesse momento e a desencadeou. Percebe a diferença entre ambas?

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Ser capaz de identificar da onde surgem esses sentimentos, enxergar como e porque sua irritação e frustração surgiram, poderá fazê-lo entender melhor a sua verdadeira natureza.

Olhando para esses sentimentos você consegue compreender, por exemplo, que a razão pela qual não consegue vestir mais sua calça jeans é porque parou de se exercitar, também há alguns meses, devido a uma mudança de emprego que te demanda mais, não havendo tempo para se dedicar a suas corridas. Depois ainda se recorda que sempre que praticava exercícios se sentia bem melhor e menos estressado.

Talvez essa simples reflexão, ambas relacionadas direta ou indiretamente a seu estilo de vida, possa trazer com mais clareza, aspectos subjetivos da sua alimentação e a partir daí, iniciar um processo de mudança que finalmente poderá ocorrer.

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REFERÊNCIAS

ALBERT, SUSAN. Eating mindfully: how to end mindless eating and enjoy a balanced relationship with food; foreword by Lilian Cheung. Oakland, CA, 2012.

BOOG, MC FABER. Educação em Nutrição – Integrando experiências. Campinas, SP Komedi, 2013.

CHEUNG, LILIAN; HANH; THICH N. SAVOR: Mindful Eating, Mindful Life, 2010. Harper Collins – New York, NY.

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Valéria Bordin é Nutricionista e atua na área clínica em consultório e em Programas de Valorização e Qualidade de vida na área corporativa. Ministra cursos e palestras voltados a conscientização de um padrão alimentar mais saudável.

Veja mais em http://ocomerconsciente.blogspot.com.br.

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