Saiba porque os povos do mediterrâneo vivem mais e melhor: O segredo está na alimentação praticada

Por João Lima

Descrita pela primeira vez nos anos 50 (1) pelo Professor Ancel Keys, em resultado de um estudo aos hábitos alimentares das populações da bacia do Mediterrâneo, esta tem se assumido como um modelo cultural de alimentação saudável. 

mapa mundo

De fato, as populações estudadas apresentavam baixa incidência de doenças relacionados com a alimentação (hipertensão, níveis elevados de colesterol, DCV, tumores) e maior longevidade. Assim, a alimentação mediterrânea tem sido associada a uma menor incidência de mortalidade e morbilidade por doenças crônicas (2-9)

A alimentação mediterrânea é caracterizada por uma alta ingestão de frutas e legumes, cereais integrais, legumes e nozes. O azeite (ácido graxo monoinsaturado) é utilizado como a principal fonte de gordura. O consumo de produtos lácteos é moderado, a frequência de ingestão de carnes vermelhas é baixa e o consumo de vinho modesto (2, 4, 7, 10-12).

mediterranean-diet (1)

Paralelamente às recomendações alimentares, o guia alimentar mediterrâneo fornece informações sobre estilos de vida saudáveis e elementos culturais que também devem ser considerados, a fim de adquirir todos os benefícios da dieta mediterrânica, como é o caso da prática de atividade física, o descanso adequado, o convívio à refeição, a opção por alimentos locais e amigos do ambiente, entre outros.

O padrão alimentar mediterrâneo é representado graficamente pela pirâmide da Alimentação Mediterrânea.

 pirâmide alimentar mediterraêa

Este estilo de vida tem sido associado, de acordo com diversos estudos que têm sido publicados, a um menor risco cardiovascular.

Segundo dados analisados por Panagiotakos e Christina-Maria Kastorini, publicados numa meta-análise que reunia mais de 50 estudos, a dieta mediterrânica apresenta um dos padrões mais conhecidos e bem estudados e demonstra estar associada à diminuição da mortalidade devido a doenças coronárias, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer, sendo considerada pelos investigadores como um “um seguro de vida” para ter um coração saudável.

No que diz respeito à prevenção do câncer, pensa-se que o elevado consumo de alimentos de origem vegetal, a baixa ingestão de carne vermelha e a utilização de azeite poderão estar na origem da capacidade protetora da alimentação mediterrânica em relação ao câncer.

Mais recentemente, um estudo publicado na revista Neurology®, da Academia Americana de Neurologia, e realizado pela Universidade do Alabama em Birmingham, sugere que a alimentação mediterrânea pode estar associada à preservação da memória e à melhoria das habilidades de pensamento.

Pensa-se que esta relação possa advir do elevado consumo de alimentos ricos em ácidos graxos ômega-3, nomeadamente peixe e frango, e ao baixo consumo de gorduras saturadas, especialmente provenientes de carne vermelhas e laticínios.

Atendendo à elevada prevalência de obesidade, doenças crônicas não transmissiveis, câncer e problemas demenciais, não existindo tratamento para a maioria destes últimos, atividades modificáveis, como a dieta, que podem atrasar o aparecimento dos das problemáticas, são muito importantes.

Referências

1.         Tabak C, Wijga AH, de Meer G, Janssen NA, Brunekreef B, Smit HA. Diet and asthma in Dutch school children. Thorax. 2006;61(12):1048-53.

2.         Barros R, Moreira, A, Fonseca, J, de Oliveira, JF, Delgado, L, Castel-Branco MG, Haahtela T, Lopes C, Moreira P. Adherence to the Mediterranean diet and fresh fruit intake are associated with improved asthma control. Allergy. 2008;63(7):917-23.

3.         Sofi F, Cesari, F, Abbate, R, Gensini, GF, Casini, A. Adherence to Mediterranean diet and health status: meta-analysis. British Medical Journal. 2008;337:1-7.

4.         Trichopoulou A, Lagiou P. Healthy traditional Mediterranean diet: an expression of culture, history, and lifestyle. Nutrition Reviews. 1997;55(11 Pt 1):383-9.

5.         Simopoulos A. The Mediterranean diets: What is so special about the diet of Greece? The scientific evidence. The Journal of Nutrition. 2001;131(11 Suppl):3065S-73S.

6.         Trichopoulou A. Mediterranean diet: the past and the present. Nutrition, metabolism, and cardiovascular diseases. 2001;11(4 Suppl):1-4.

7.         Serra-Majem L, Roman B, Estruch R. Scientific Evidence of Interventions Using the Mediterranean Diet: A Systematic Review. Nutrition Reviews. 2006;64:2.

8.         Bach A, Serra-Majem L, Carrasco JL, Roman B, Ngo J, Bertomeu I. The use of indexes evaluating the adherence to the Mediterranean diet in epidemiological studies: a review. Public Health Nutrition. 2006;9(1A):132-46.

9.         Serra-Majem L, Ngo J, Ortega RM, Garcia A, Perez-Rodrigo C, Aranceta J. Food, youth and the Mediterranean diet in Spain. Development of KIDMED, Mediterranean Diet Quality Index in children and adolescents. Public Health Nutrition. 2004;7(7):931-5.

10.       Castro-Rodriguez J, Garcia-Marcos L, Alfonseda Rojas JD, Valverde-Molina J, Sanchez-Solis M. Mediterranean diet as a protective fator for wheezing in preschool children. The Journal of Pediatrics. 2008;152(6):823-8, 28, 1-2.

11.       Serra-Majem L, Trichopoulou A, de la Cruz JN, Cervera P, Álvarez AG, La Vecchia C. Does the definition of the Mediterranean diet need to be updated? Public Health Nutrition. 2004;7(07):927-29.

12.       Arvaniti F, Priftis KN, Papadimitriou A, Papadopoulos M, Roma E, Kapsokefalou M. Adherence to the Mediterranean type of diet is associated with lower prevalence of asthma symptoms, among 10-12 years old children: the PANACEA study. Pediatric allergy and immunology : official publication of the European Society of Pediatric Allergy and Immunology. 2011;22(3):283-9.

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João Lima é Nutricionista, formado pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (Portugal). Atualmente trabalha na área coletiva, ao nível de UAN, nutrição comunitária e nutrição clínica (consultório).

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